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Um Só Deus - Da Lei à Graça


  O advento da Graça não invalidou a Lei, mas a aperfeiçoou e, em certa medida, tornou-a ainda mais rigorosa.

  Tendo isso em consideração e diante de Sua severidade ao castigar o pecado, há quem prefira acreditar que o Senhor Deus dos Exércitos do Antigo Testamento não é o mesmo Deus Pai Misericordioso do Novo Testamento, mas o destemperado demiurgo gnóstico, tentando se passar por Ele. Essa ideia corruptora reflete uma antiga heresia do cristianismo primitivo conhecida como marcionismo que, deturpadamente, separa Justiça e Amor Divinos.




INTRODUÇÃO

"Os Quatro Evangelistas", Jacob Jordaens, 1625–1630.


Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça.
2 Timóteo 3: 16


As dúvidas fazem parte do caminho da fé e eu não vejo problemas que comprometam a inspiração divina, ao admitir a possibilidade de falhas humanas no processo de tradução dos livros que compõem a Bíblia, assim como no trabalho dos copistas. Exemplo disso seria Mateus 19: 24, onde Jesus afirma que "[...] é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus". Nesse versículo, a polêmica incide sobre a palavra "camelo" que os críticos apontam como um suposto erro de tradução, do aramaico para o grego, onde o vocábulo "gamia" (corda de pescadores) teria sido confundido com "gamai" (camelo). Tendo em vista que Jesus lidava com pescadores e uma corda é muito mais espessa do que uma linha, tal alegação parece bastante plausível. Contudo, não existem evidências concretas para afirmar que, originalmente, o Evangelho de Mateus tenha sido escrito em aramaico. Polêmicas à parte, ao considerarmos o capítulo como um todo, seja um camelo ou uma corda, a figura de linguagem mantém a essência do ensinamento, comunicando claramente a dificuldade de abrir mão das posses materiais, em prol das riquezas espirituais. Ou seja, mesmo que existam trechos que careçam de plena fidelidade à Palavra inspirada, isso não resulta em prejuízo para o conteúdo, tampouco em perdas doutrinárias.


Ocorre, porém, um grave problema quando passamos a suspeitar de forma indiscriminada, sem maior estudo, profundidade e reflexão. Por essa conduta, confesso que eu já estive entre os que duvidam que o Senhor severo do Antigo Testamento seja o mesmo Pai amoroso do Novo Testamento. No meu caso, a razão das incertezas era uma perspectiva contaminada pelo contato com o ocultismo, ainda muito jovem. As sendas esotéricas promovem a fascinação pelos mistérios e espalham uma névoa de desconfiança que torna fácil nos identificarmos como buscadores de uma verdade que a poucos é dado conhecer. Nesse meio, Jesus não é o Messias que veio proclamar a Boa Nova aos "pequeninos", mas um mestre de segredos iniciáticos concedidos apenas a um círculo seleto de discípulos. Ao mordermos essa isca de "arcanos libertadores", somos fisgados pelo anzol do Maligno e passamos a crer num amplo esquema de dissimulação dolosa; inclusive nas controversas falhas de tradução e cópia dos Evangelhos que os detratores do cristianismo utilizam, maliciosamente, para desacreditar a totalidade da Palavra de Deus.

Isso é parte de um esquema global de inversão de valores que glorifica Lúcifer e demoniza a imagem do Altíssimo, objetando a sua Justiça e reduzindo as Escrituras a um virulento complô conspiratório para iludir e escravizar o homem, atrasando a sua "evolução espiritual".

Há quem desafie a Lei e, enganosamente, negue a Justiça de Deus para agir como se não houvesse Condenação. Mas o que deixa de haver é a Graça; pois a Lei, a Justiça, a Condenação e a Graça de Deus são inseparáveis.




1. Sobre a Etimologia da Palavra Lei



"Moisés Recebe os Dez Mandamentos", Julius Schnorr von Carolsfeld, 1851-1860.


  - Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?

  Respondeu Jesus:

  - "Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento". Esse é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: "Ame o seu próximo como a si mesmo". Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.

Mateus 22:36-40


Entre os vocábulos latinos aceitos na origem do termo "Lei", está "LIGARE" - ligar, unir, obrigar; significado que também evoca um sentido de estabilidade e permanência.




2. Sobre Rebelião e Desobediência



"Anjos Caídos", Gustave Doré, 1866.


  Como caíste desde o céu, ó Lúcifer, filho da alva!
Isaias 14: 12


  - Tu eras o querubim, ungido para cobrir, e te estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio das pedras afogueadas andavas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti.Na multiplicação do teu comércio encheram o teu interior de violência, e pecaste; por isso te lancei, profanado, do monte de Deus, e te fiz perecer, ó querubim cobridor, do meio das pedras afogueadas. Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; por terra te lancei [...]
Ezequiel 28:14-17


  - E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia;
Judas 1: 6


Em termos bíblicos, a Queda de Satanás se dá por rebeldia, quando o mais formoso dos Querubins quis ser como Deus e foi lançado para fora das regiões celestiais com a terça parte dos anjos que o apoiaram. Posteriormente, esse mesmo Anjo causou a Queda do homem, tentando-o para agir em desobediência ao que Deus ordenou. Adão não apenas faltou com as suas obrigações ao não vigiar o Paraíso e, assim, permitir que a "serpente" se esgueirasse até Eva para seduzi-la; mas também se deixou convencer pela mulher a provar do "fruto proibido", cuja promessa era torná-lo como Deus. Assim, o pecado original cometido pelo homem não difere, essencialmente, do pecado (ou tropeço) de Satanás: o desejo de se tornar como Deus.

Distinga-se, porém, que o que Satanás buscou pela insurreição, o homem buscou pela desobediência. Todavia, a Bíblia nos faz pensar que, num estágio seguinte, Adão também teria usado de força, pois a expulsão foi para evitar que, depois de sorver o conhecimento do Bem e do Mal, o homem tentasse usurpar os frutos da "Árvore da Vida" (Gênesis 3: 22).



3. Sobre o reLIGARE



Bíblia: Registro da Lei de Deus.


  - Digo a verdade: enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra.

Mateus 5:18


A Bíblia não é um tratado esotérico, mas um conjunto de ensinamentos edificantes e salvíticos, escritos para que a Lei seja compreendida pelos mais diversos níveis de entendimento. Portanto, não nos debruçamos aqui sobre simbolismos ocultos e interpretações mirabolantes. Pelo contrário, com total simplicidade, partimos do relato bíblico do pecado original, identificando o desrespeito à Ordem Divina e à Palavra que sustenta a essa Ordem como causa raiz de todas as mazelas da condição humana. Ou seja, através da desobediência de Adão, a Lei Divina foi violada, a união com Deus foi rompida; e, consequentemente, a estabilidade/permanência foi perdida.

O sentido da palavra "reLIGARE", origem latina da palavra religião, não é outro, senão o de nos ligarmos novamente a Deus. Algo que, implicitamente, remete ao objetivo de nos colocarmos, outra vez, sob as Suas Leis (as Leis da Criação, da Estabilidade e da Ordem que se sobrepõe ao Caos).




4. Sobre Deus Senhor e Deus Pai



"Transfiguração de Cristo", Giovanni Bellini, 1480.


  Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago, e os levou, em particular, a um alto monte.

  Ali ele foi transfigurado diante deles. Sua face brilhou como o sol, e suas roupas se tornaram brancas como a luz.

  Naquele mesmo momento apareceram diante deles Moisés e Elias, conversando com Jesus.

  Então Pedro disse a Jesus:

  - Senhor, é bom estarmos aqui. Se quiseres, farei três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.

  Enquanto ele ainda estava falando, uma nuvem resplandecente os envolveu, e dela saiu uma voz, que dizia:

  - Este é o meu Filho amado em quem me agrado. Ouçam-no!
Mateus 17:1-5


É importante ressaltar que o episódio da transfiguração de Jesus manifesta a presença de Moisés e Elias que representam, respectivamente, a Lei e as profecias. Ou seja, isso demonstra a complementaridade entre o Antigo e o Novo Testamento, indicando que Jesus é aquele que veio para cumprimento da Lei e das profecias, a fim de proclamar a Boa Nova. Para que não reste a menor sombra de dúvidas, em adição ao aval de Moisés e Elias, a voz de Deus retumba, ratificando a autoridade do Messias.

Enganam-se os que separam a Graça e a Lei, como se o Amor de Deus neutralizasse a Sua Justiça. O conteúdo do Antigo Testamento não diverge do conteúdo do Novo Testamento, mas o completa. A ênfase do primeiro está na submissão à Lei de Deus Senhor, em expiação à desobediência do homem; enquanto o segundo enfatiza a Graça de Deus Pai, em seu propósito de redenção. Mais que diferentes aspectos do mesmo Deus, essa dicotomia abrange distintas fases no relacionamento entre o homem e Deus.

A harmonia paradisíaca reflete a Lei constituída pelos Mandamentos de Deus e sua Autoridade; porém, através de uma relação Pai e filho que suplanta o vínculo Criador e criatura. Em Lucas 3: 38, tratando sobre a origem da linhagem do Senhor Jesus a partir de Maria, o versículo chega ao início de Sua genealogia: "[...] filho de Sete, filho de ADÃO, FILHO DE DEUS". Ao considerarmos que, originalmente, a humanidade descende de Adão, filho de Deus, concluímos que descendemos diretamente do Altíssimo e temos, portanto, uma herança divina a reconhecer.

Adão e a Morte trabalhando a Terra, Larive e Fleury, 1895.

A Queda do homem representa a perda de sua relação filial com Deus que passa a ser O Senhor, enfatizando que a Ele tudo pertence e o homem não pode tomar. Em outras palavras, o castigo pela desobediência do filho foi se tornar servo, cultivar a terra para obter o pão com o suor do seu trabalho e, então, retornar ao pó de onde veio, conhecendo a morte e mesmo a aniquilação final (segunda morte), ao insistir na insubmissão.




5. Sobre os Filhos de Deus e o Filho do Homem



"Anunciação", Leonardo da Vinci, 1472-1475.


  E, entrando o anjo aonde ela estava, disse:

- Salve, agraciada; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres.

  E, vendo-o ela, turbou-se muito com aquelas palavras, e considerava que saudação seria esta.

  Disse-lhe, então, o anjo:

  - Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus. E eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus. Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; E reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.

  E disse Maria ao anjo:

  - Como se fará isto, visto que não conheço homem algum?

  E, respondendo o anjo, disse-lhe:

  - Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus. E eis que também Isabel, tua prima, concebeu um filho em sua velhice; e é este o sexto mês para aquela que era chamada estéril; Porque para Deus nada é impossível.

  Disse então Maria:

  Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra.

  E o anjo ausentou-se dela.

Lucas 1:28-38


Por um lado, se Adão é citado como filho de Deus; por outro, o Senhor Jesus nasce de mulher e é referido como "Filho do Homem" ("O Filho do homem veio para salvar o que se havia perdido" - Mateus 18: 11). Ou seja, no incalculável custo da Redenção, Deus nasce do homem (que nasceu de Deus), sacrificando-se em seu lugar, a fim de restituir-lhe o legado divino.

Através de Jesus, somos encorajados a sermos como criancinhas e a chamarmos a Deus, carinhosamente, de Aba Pai (Paizinho, Papai), restabelecendo a nossa intimidade filial. Somos instados a abandonar a condição de servos e a enxergar, além da face do Temível Senhor, o longânime Pai Eterno de quem recebemos a nossa herança divina, a fim de resgatarmos uma autoridade que os servos não têm. Portanto, a edificação do homem, em Cristo, representa a retomada da relação filial perdida e a restituição de nossa autoridade sobre a terra, pela Graça transmitida por Deus. A Ele pertence todo o poder, toda a honra e toda a glória; porém, como filhos Dele, herdamos o nosso quinhão dessa majestade.




6. Sobre a Monogênese do "Filho Unigênito"



Adoração dos Magos, Peter Paul Rubens, 1577-1640


Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
João 3: 16


Cabe antecipar questões tais como: "mas Jesus não seria o Filho Unigênito de Deus? Se sim, como dizer que Adão era Filho de Deus"? Erroneamente, o termo "Unigênito" também é usado para reduzir Jesus a um ser criado e aqui existe a necessidade de irmos além do senso comum, mediante um paralelo com o "sacrifício de Abrahão".

"O Sacrifício de Abrahão", Juan de Valdés Leal, 1657-1659.

  Então, disse Deus:

  - Tome seu filho, seu filho unigênito, Isaque, a quem você ama, e vá para a região de Moriá. Sacrifique-o ali como holocausto num dos montes que lhe indicarei.

Gênesis 22: 2

Unigênito significa "filho único", mas a palavra grega original é monogenes ("monós" [único] + "genós" [espécie, classe, tipo]) cujo significado seria "o único de sua classe" ou "o único em sua estirpe". Em outras palavras, o termo refere-se a Jesus como Ser Único, em sua essência divina e em seu relacionamento direto com o Pai, como emanação de Deus. Cabe salientar que Abrahão foi testado a sacrificar o próprio filho1, Isaque, como prova de sua fidelidade; o qual também é referido como monogenes (igualmente traduzido por unigênito), embora não fosse descendente exclusivo de Abrahão, mas o seu único filho com Sara; concebido em avançada velhice pela Graça de sua aliança com Deus. Assim, Isaque era o único de sua estirpe ou monogenes.


1 Há quem critique o teste que Deus aplicou sobre Abrahão, acusando-O de sadismo; porém, ao contrário dos cruentos deuses pagãos, além de impedir a consumação do sacrifício, mais adiante, no NT, é o Altíssimo que entrega o próprio Filho para ser imolado pelo homem.





7. Sobre o Resgate pela Obediência



"A Repreensão de Adão e Eva", Domenichino, 1626.


  À mulher, Ele declarou:

  - Multiplicarei grandemente o seu sofrimento na gravidez; com sofrimento você dará à luz filhos. Seu desejo será para o seu marido, e ele a dominará.

  E ao homem declarou:

 - Visto que você deu ouvidos à sua mulher e comeu do fruto da árvore da qual eu lhe ordenara que não comesse, maldita é a terra por sua causa; com sofrimento você se alimentará dela todos os dias da sua vida.Ela lhe dará espinhos e ervas daninhas, e você terá que alimentar-se das plantas do campo. Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó e ao pó voltará.

Gênesis 3:16-19


Se o que levou o homem à Queda e à condição mortal foi a sua desobediência a Deus ("Mas Deus disse: 'Não comam do fruto da árvore que está no meio do jardim, nem toquem nele; do contrário vocês morrerão'" – Gênesis 3: 3); o preço da Salvação foi a obediência irrestrita de Cristo ao aceitar a própria morte para que tivéssemos "vida em abundância" (João 10: 10). O Senhor Jesus não veio para suprimir a Lei, mas cumpri-la e aperfeiçoá-la; pois, livre de pecado, despiu-se de Sua Glória, submeteu-se a humilhações e entregou a própria vida para o resgate de muitos, no mais sublime gesto de Amor (Ágape). No Jardim de Getsêmani, entre a Última Ceia e o martírio na cruz, consciente de todo o sofrimento que o esperava, Jesus suplica a Deus para poupá-lo, mas somente se essa fosse a vontade soberana do Pai.


"Prece no Jardim" (Jesus orando no Jardim Getsêmani), Sebastiano Ricci, 1730.


Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua. E apareceu-lhe um anjo do céu, que o fortalecia. E posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor tornou-se como grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão.
Lucas 22: 42; 44

Jesus colocou a própria vontade em segundo plano e cumpriu a vontade do Pai "porque, como pela desobediência de um só homem [Adão], muitos foram feitos pecadores; assim, pela obediência de um [Nosso Senhor Jesus Cristo], muitos serão feitos justos" - Romanos 5:19.

Pela obediência de Cristo, o Sacrifício de Redenção foi realizado; por sua total inocência, aceito; e por sua Ressurreição, a morte foi vencida, decretando a condenação do reinado de Satanás.




8. Sobre Pecado, Arrependimento e Perdão


"O Perdão do Bom Ladrão", James Tissot, 1886-1894.

  E um dos malfeitores que estavam pendurados blasfemava dele, dizendo:

  - Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo, e a nós.

  Respondendo, porém, o outro, repreendia-o, dizendo:

  - Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação? E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez.

  E disse a Jesus:

  - Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino.

  E disse-lhe Jesus:
  -Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.

Lucas 23:39-43

Antes da vinda do Senhor Jesus, o povo de Deus vivia sob o ditame inflexível da Lei que punia rigorosamente os pecados. Mas, com o sangue de Jesus, um novo artigo foi incluso na Lei, a fim de considerar o arrependimento e conceder o perdão, reconciliando todas as coisas, no céu e na terra:

Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude, e por meio dele reconciliasse consigo todas as coisas, tanto as que estão na terra quanto as que estão no céu, estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz.
Colossenses 1: 19,20

O Amor de Deus não é conivente com o pecado e, portanto, não impede a Sua Justiça. Porém, o que se arrepende, confessa e renuncia ao Mal, recebe perdão e vida abundante pela Graça de Deus.




7. Sobre a Integração entre o Antigo e o Novo Testamento


"Lei e Graça", Lucas Granach, 1529.

ALGUMAS REFERÊNCIAS DE JESUS AO ANTIGO TESTAMENTO


  - Se vocês fossem filhos de Abraão, fariam as obras que Abraão fez. Mas vocês estão procurando matar-me, sendo que eu lhes falei a verdade que ouvi de Deus; Abraão não agiu assim.

João 8:39,40


  - Abraão, pai de vocês, regozijou-se porque veria o meu dia; ele o viu e alegrou-se

João 8:56


  - Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Digo-lhes a verdade: Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra.
Mateus 5:17-18


  - Quanto à ressurreição dos mortos, vocês não leram no livro de Moisés, no relato da sarça, como Deus lhe disse: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó’? Ele não é Deus de mortos, mas de vivos. Vocês estão muito enganados!
Marcos 12:26,27


  - Foi isso que eu lhes falei enquanto ainda estava com vocês: Era necessário que se cumprisse tudo o que a meu respeito estava escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.
Lucas 24:44


  - Se vocês cressem em Moisés, creriam em mim, pois ele escreveu a meu respeito.
João 5:46


  - Moisés não lhes deu a lei? No entanto, nenhum de vocês lhe obedece. Por que vocês procuram matar-me?
João 7:19


  - Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim [citando Isaías 29:13].

Mateus 15:8


Considerando repetidas referências, o Novo Testamento reúne cerca de 400 citações do Antigo Testamento2 (Gênesis, Êxodo, Deuteronômio, etc.). Além disso, na genealogia materna e paterna de Jesus, encontramos Abrahão, Davi e Salomão, entre outras figuras ilustres do Antigo Testamento. Então, como poderia o Deus de Abrahão, Isaque e Jacó ser diferente do Deus de Jesus?

Exceto nas correntes das Escolas de Mistérios (através dos expedientes e maquinações dialéticas daquele que separa), o Deus de Implacável Justiça e "Senhor dos Exércitos" do Antigo Testamento é o mesmo Deus Pai de Amor e Graça que Jesus testifica no Novo Testamento. Em verdade, o próprio Jesus cita o AT, diversas vezes, pois ainda que o ceticismo moderno tente reduzir a Bíblia a um compilado de livros distorcidos e/ou mal traduzidos: as Escrituras registram a revelação progressiva de Deus para o homem. Assim sendo, enquanto absorto pela densidade do plano material e movido por instintos e desejos animalescos, o homem só tinha interesse em promessas do mundo físico; mas, tendo atingido o necessário estágio de maturidade espiritual, as promessas de um reino que não é deste mundo passaram a fazer sentido e puderam ser escutadas.

Confundir o Deus do Antigo Testamento com o demiurgo gnóstico3, distinto do Deus do Novo Testamento, é separar Justiça e Graça Divinas. Algo bastante conveniente na propagação ideológica de um "amor" permissivo e sentimentaloide que turva o juízo e enfraquece a vontade. É esse "amor" destituído de justiça que floresce na Nova Ordem Mundial e permite ao pecador esperar pelo perdão, sem arrependimento, nem abandono de suas faltas.


2 Vide: http://solascriptura-tt.org/Bibliologia-InspiracApologetCriacionis/ListaCitacoesDoVTNoNT-SteveRudd.htm
3 Na cosmologia platônica, o Demiurgo não é o criador da matéria, mas o "nous" ou divino propósito que dá forma ao caos, organizando o Universo físico. Já no gnosticismo, o Demiurgo é o arrogante criador intermediário, responsável pelas ilusões do mundo material.



8. Sobre o Ministério da Salvação



Detalhe: "O Fariseu e o Cobrador de Impostos", Barent Fabritius, 1661.


  Dois homens subiram ao templo, para orar; um, fariseu, e o outro, publicano.

  O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira:

  - Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo.

  O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo:

  - Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!

  - Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado.

Lucas 18:9-14


Há aqueles que nunca receberam a Palavra de Deus e jamais conheceram os ensinamentos do Senhor Jesus, mas seguem a Lei, sem mesmo saber que o fazem. Eles a têm, naturalmente, gravada em seus corações, permitem que a misericórdia filtre os seus intelectos e agem em conformidade com os Mandamentos de Deus:


Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas. Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados. Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados. Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os.
Romanos 2: 11-15

Todavia, há também aqueles que foram instruídos na Lei e conhecem a Palavra de Deus desde o berço familiar. Mas tê-la em seu intelecto não significa que a obedeçam, tampouco que ela tenha sido filtrada pela misericórdia, alcançado os seus corações e consubstanciada em seus atos:


No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho, eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; E sabes a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído por lei; E confias que és guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, Instruidor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei; Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós.
Romanos 2: 16-24

Não é apenas o conhecimento da Palavra que salva, mas a sua prática. Nessa perspectiva, há quem a pratique, agindo segundo a vontade de Deus, mesmo sem conhecê-la. Assim como existem aqueles que conhecem a Palavra com profundidade intelectual, mas repreensível superficialidade de coração e se dizendo crentes, praticam o mal e desonram a Deus.

A Salvação é fruto da Graça de Deus que conhece as nossas obras, esquadrinha os nossos corações e julga com reta justiça, a despeito das aparências. Senão pela Sua Graça, pouquíssimos ou, mais provavelmente, ninguém se salvaria.




9. Sobre o Bom Combate



"Sermão do Areópago" (Paulo pregando em Atenas), Rafael, 1515.



Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.
2 Timóteo 4:7


A Salvação pode alcançar aqueles cuja Lei está gravada em seus corações e cujos atos espelham o que é agradável diante de Deus. Mas sem a Boa Nova, as almas continuariam ignorantes de sua herança divina e é através desse saber que resgatamos a necessária autoridade espiritual, porque:

[...] não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.
Efésios 6: 12

Por um lado, se o mero conhecimento das Escrituras, sem a prática dos seus Mandamentos, não tem efeito para a Salvação; por outro, é difícil manter a integridade de caráter e continuarmos retos diante de Deus, desconhecendo a Palavra de Salvação, num mundo imerso em iniquidades:


O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos.
Oseias 4: 6

Todo cristão é sacerdote diante do Altíssimo. O exemplo de Cristo é a doação de si mesmo e, igualmente, o propósito da instrução não é apenas garantir a própria Salvação, mas também a dos nossos próximos. As Escrituras devem ser devidamente compreendidas pelos homens de boa vontade que formam as colunas do Exército do Senhor, pois cabe a eles anunciá-las. Quanto maior a luz de discernimento espiritual confiada por Deus, maior a nossa responsabilidade e mais duramente seremos julgados, já que a propagação da verdade é um dever inalienável:


Quando eu disser ao ímpio: Certamente morrerás; e tu não o avisares, nem falares para avisar o ímpio acerca do seu mau caminho, para salvar a sua vida, aquele ímpio morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue, da tua mão o requererei. Mas, se avisares ao ímpio, e ele não se converter da sua impiedade e do seu mau caminho, ele morrerá na sua iniquidade, mas tu livraste a tua alma. Semelhantemente, quando o justo se desviar da sua justiça, e cometer a iniquidade, e eu puser diante dele um tropeço, ele morrerá: porque tu não o avisaste, no seu pecado morrerá; e suas justiças, que tiver praticado, não serão lembradas, mas o seu sangue, da tua mão o requererei. Mas, avisando tu o justo, para que não peque, e ele não pecar, certamente viverá; porque foi avisado; e tu livraste a tua alma.
Ezequiel 3: 18-21


Somos parte de algo maior que nós mesmos e chamados a dar testemunho Daquele que nos restituiu à Paternidade do Eterno. Há um antigo combate sendo travado no plano espiritual e seu objetivo não é obter ouro, nem terras, ou qualquer outra riqueza deste mundo; mas preciosas almas, riscando o maior número de nomes do Livro da Vida para alimentar os Predadores Caídos, à espreita nos esgotos que escoam nos túneis da "Árvore da Morte".




10. Sobre o Povo Escolhido e sua Santificação



"Arca da Aliança", Anônimo, Século. XVI.


[...] farão uma arca de madeira de acácia; [...]E fundirás para ela quatro argolas de ouro, e as porás nos quatro cantos dela, duas argolas num lado dela, e duas argolas noutro lado. E farás varas de madeira de acácia, e as cobrirás com ouro. E colocarás as varas nas argolas, aos lados da arca, para se levar com elas a arca. As varas estarão nas argolas da arca, não se tirarão dela. Depois porás na arca o testemunho, que eu te darei. Também farás um propiciatório de ouro puro; [...]. Farás também dois querubins de ouro; [...], nas duas extremidades do propiciatório [...]. Os querubins estenderão as suas asas por cima, cobrindo com elas o propiciatório; as faces deles uma defronte da outra; as faces dos querubins estarão voltadas para o propiciatório. E porás o propiciatório em cima da arca, depois que houveres posto na arca o testemunho que eu te darei. E ali virei a ti, e falarei contigo de cima do propiciatório, do meio dos dois querubins (que estão sobre a arca do testemunho), tudo o que eu te ordenar para os filhos de Israel.
Êxodo 25:10-22

O termo "santo" (latim, "sanctus"; grego "hagios"; hebraico, "kadosh") pode ser traduzido como "separado", no sentido de afastado da corrupção e maldade deste mundo. A santidade do casamento, por exemplo, é baseada no compromisso assumido pelo casal em ser, exclusivamente, um do outro; ou seja, um só corpo e uma só carne, separados da promiscuidade mundana.

Assim, a despeito de protestos antissemitas, Deus separou os judeus dos demais povos e os fez andar debaixo da estrita observância de Suas Leis para que através de Israel, quando chegasse a hora, o Messias pudesse se manifestar entre os homens. Entre as tribos de Israel, Ele separou os levitas para servi-Lo e, ao considerar que o sacerdócio foi consagrado à tribo de Levi (descendentes do terceiro filho de Jacó, que era um homem violento), parece-me que, às vezes, Deus se compraz na "lapidação de pedras brutas". É assim que vemos Saulo (romano de nascimento; judeu da descendência de Abrahão; conhecedor zeloso da lei; e implacável perseguidor de cristãos), tornar-se o apóstolo Paulo, que usou da mesma disposição enérgica para evangelizar. Igualmente, não seria acertado dizer que o povo judeu foi escolhido e santificado por ser perfeito (latim "perfectus", completo, acabado, pronto), se comparado aos demais povos; mas por reunir qualidades sobre as quais Deus haveria de trabalhar, através de gerações, até o nascimento do Salvador.

No entanto, após o cumprimento da promessa messiânica, a Boa Nova é dada a todos os que estejam dispostos a ouvi-la, pois, de acordo com Mateus 22: 14: "Muitos são chamados, mas poucos escolhidos". Na parábola que contextualiza esse versículo, vemos que os judeus não apenas desdenham do convite para celebrar as bodas do filho do rei, como ultrajam e matam os seus emissários. Então, após dar fim a esses homicidas, o rei estende o seu convite para os gentios que atendem ao chamado:

Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.
Romanos 2: 28-29

Ocorre ainda que, entre os convidados gentios, o rei encontra um homem que emudece ao ser interpelado sobre o motivo de não estar vestido de maneira adequada para a ocasião. Esse homem é lançado fora da festa, nas trevas exteriores, pois ouviu o chamado, mas não se preparou para atendê-lo. Ou seja, ele recebeu a Palavra, mas não a colocou em prática.


Escolhido é todo aquele que ouve, crê e pratica a Palavra de Deus.




11. Sobre a Rejeição da Pessoalidade e Sentimentos de Deus



"Moisés e a Sarça Ardente", Schnorr von CarolsFeld, 1851-60. 


Então disse Moisés a Deus:

 - Eis que quando eu for aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi?

 E disse Deus a Moisés:

 - EU SOU AQUELE QUE SOU.

  Disse mais:

 - Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós.

 E Deus disse mais a Moisés:

 - Assim dirás aos filhos de Israel: O Senhor Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó, me enviou a vós; este é meu nome eternamente, e este é meu memorial de geração em geração.
Êxodo 3:13-15


Paulo (I Coríntios 1: 18) nos diz que "a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus".


Cremos em um Deus Inefável e Sempiterno que não se limita no Tempo ou no Espaço, pois É AQUELE QUE É (Êxodo 3: 14): Onipresente, Onipotente e Onisciente. Para escândalo dos céticos, cremos ainda que Esse mesmo Deus, Criador de todas as coisas, nos fez à sua imagem e semelhança; e andou conosco antes da Queda, em Pessoa, no Paraíso. Haja vista a concepção moderna que faz o homem parecer desprezível diante da imensidão do Universo, como o Absoluto poderia andar lado a lado de um ser tão insignificante? Será que a cosmologia bíblica é ilusória ou é a perspectiva científica atual que nos tenta iludir, depreciando a vida humana num esforço deliberado para ocultar a extraordinária origem espiritual do homem e, assim, aviltar o valor de sua existência? O fato é que, na óptica cristã, somos tão importantes e amados pelo Eterno que o Verbo Divino, em Pessoa, desceu de Sua glória celestial para nos resgatar, habitando na carne para livrar os que estão na carne, a preço do Seu próprio sangue. Algo que não ocorreu sem impactos para a antiga ordem do mundo, seus cultos e suas potestades.


O termo religião (religare) é empregado de forma generalizada, mas para que haja uma religação é preciso conceber um desligamento a partir de uma visão monoteísta que contemple a unidade primordial do homem com o seu Criador, conforme vemos no judaísmo, cristianismo e no clássico inimigo declarado de ambos, o islamismo. Quanto ao budismo, ele é mais bem enquadrado como uma filosofia derivada do hinduísmo, cujas raízes se perdem na mais obscura antiguidade.


Complexo de Templos Meenakshi Amman, na Índia:
14 torres; 33 mil esculturas de deuses(devas)e demônios (asuras)


Infiltrado no ocidente pela prática do Yôga, o complexo sistema hinduísta se alimenta de múltiplas correntes filosóficas que, basicamente, subdividem-se entre o pensamento ateísta (Samkhya) que aborda a Criação como o resultado da dualidade matéria (prakriti) e consciência (purusha); ou concebe a existência de Deus de um ponto de vista não interferente para as questões humanas (Vedanta Advaita). Num misto de politeísmo (com 330 milhões de divindades oficialmente reconhecidas) e panteísmo (onde Deus é tudo e tudo é Deus), as crenças hindus permitem a devoção a personalidades humanas celebrizadas como santos e gurus. Quando se diz que Yôga é filosofia, em vez de religião, a definição é correta em termos estritos, pois, embora o termo possa ser traduzido como "união"; não se trata de reunir ou religar, mas sim de estabelecer uma união simbiótica com uma multiplicidade de seres (como na união entre o guru indiano Ramakrishna e a "deusa Kali") ou "mestres iluminados" cujo grau de consciência é considerado tão superior ao dos devotos que são acolhidos como "o Deus" particular de cada um deles.


No entanto, a mera análise etimológica é insuficiente para negar o viés religioso do Yôga, do qual as Escolas de Mistérios adotam, especialmente, exercícios respiratórios para alternar entre diferentes estados de consciência. Em concordância com o hinduísmo, essas Ordens também estimulam a união com "mestres" (visíveis e invisíveis), a fim de acelerar a "evolução espiritual" dos iniciados que, ingenuamente, abrem-se ao desconhecido. De acordo com os princípios mágicos propagados pelo pervertido mago inglês Aleister Crowley, não se deve falar em união com Deus, mas com "o Deus". Ou seja, embora o rebanho do Movimento Nova Era suspire enganosamente por essa união, acreditando que se trata da fusão do homem com o "Absoluto" (Microcosmos e Macrocosmos), Aleister Crowley (Eight Lectures of Yôga, 1939) descarta essa integração final entre a consciência humana e o Cosmos (Moksha para os hindus; Nirvana para os budistas), enquanto admite a união mística com gênios interdimensionais que se tornam "o Deus" para o devoto. Tais inteligências mantêm contato com o homem desde a aurora dos tempos, já foram cultuadas como deuses no passado e ainda continuam ávidas por adoração e sacrifícios. Considerando que essas potestades desejam recuperar o status que perderam, então, podemos atestar que o Yôga, o hinduísmo, o budismo e as Escolas de Mistérios clássicas são inegáveis religiões, pois religam o homem a antigas correntes espirituais. Entretanto, nunca é demais lembrar aos incautos que correntes prendem escravos e, a despeito das promessas de iluminação que possam receber dessas inteligências e gurus, a doutrina cristã adverte que, em linhas gerais, não passam, respectivamente, de demônios (Anjos Caídos) e endemoniados (marionetes do Mal).


Através das Escolas de Mistérios e sua profunda influência sobre a classe intelectual; assim como mediante a popularização das práticas do Yôga; a invasão de filosofias orientais; e a salada mística difundida pelo Movimento da Nova Era: houve uma séria corrosão das bases judaico-cristãs na cultura e no pensamento do Ocidente. Trata-se de um processo que começou de forma gradual, através de gerações de ocultistas renomados, mas ainda dentro de grupos restritos. Porém, do final do século XIX em diante, passou por uma intensa aceleração e, hoje, princípios e práticas que estavam restritos aos círculos esotéricos adquiriram popularidade e uma quase incontestável aceitação pública (vide "O Segredo"). Crowley, em particular, deu voz à máxima do "faze o que tu queres" através do "Livro da Lei" (Liber Al Vel Legis). Pensamento ditado por uma entidade identificada como Aiwass e vulgarizado através da música, do cinema e das artes, adubando as raízes do hedonismo moderno com sua rebeldia desarrazoada e total aversão aos valores cristãos. Assim, a atualidade abre espaço para um egocêntrico "super-homem" que acredita ser capaz de salvar a si mesmo, tendo por pano de fundo o ateísmo que tudo nega; o ecumenismo que tudo aceita; assim como filosofias e mestres orientais que vendem a ideia da "realização de Deus", em si mesmo.

Crowley no Álbum dos Beatles, “Sgt. Pepper's".


A Palavra de Deus é simples e direta, proferida para falar mais ao coração do que ao intelecto. Não obstante, é possível complicá-la, distorcê-la e, então, desviarmo-nos dela. Enxergar a Lei de Deus e a Boa Nova de Cristo pelo prisma materialista moderno, eivado de gnosticismo e preceitos exógenos à tradição cristã não é desvelar o que está oculto, mas obscurecer o que foi iluminado pela vida exemplar, morte sacrificial e ressurreição vitoriosa do Nosso Senhor Jesus Cristo. Lamentavelmente, por um lado, a Pessoa de Deus é rejeitada e, por outro, a divindade pessoal do homem é exaltada num cenário hostil à fé cristã, onde, nas palavras de Nietzsche: "Deus está morto".


"Mataram Deus" num altar à ciência e é curioso que passagens bíblicas, como Isaias 47: 13-15, sejam utilizadas para demonstrar que Deus condena práticas como a astrologia, sem levar em conta que ciência, magia e religião formavam um só corpo de conhecimento na antiguidade, de modo que o papel de sacerdotes e magos equivalia aos dos cientistas atuais. Tal qual acontece na meteorologia, por exemplo, onde sofisticados equipamentos são usados para mensurar variáveis de temperatura, pressão, umidade, vento, evaporação, etc., no intuito de prever as condições climáticas; a astrologia se vale de uma complexidade de preceitos filosóficos para analisar a observação de variáveis na mecânica celeste, a fim de prever os acontecimentos terrestres. Estudei astrologia e concordo com a sua contraindicação, pois ela inclina ao envolvimento com múltiplas formas de ocultismo, acercando-se de sérios riscos à integridade espiritual. Não obstante, ao contextualizá-la como ciência empírica, o meu objetivo é ressaltar que a condenação de Deus recai, na verdade, sobre a arrogância e o orgulho infundado por trás das práticas realizadas por magos e sacerdotes. O problema, a meu ver, não está no estudo científico em si, seja ele qual for, mas na pretensão de um "saber" que faz o homem pensar que é como Deus ou, naquilo que está mais em voga nos nossos tempos, decretar a "morte de Deus". A ciência moderna abraça o niilismo e faz a Criação parecer uma displicente obra do acaso para, então, negar a existência de Deus, tornando-nos ainda piores do que os babilônios.


"Sétima Praga", John Martin, 1823.Chuva de granizo: golpe contra a deusa egípcia Serapis, protetora da lavoura.


No Antigo Testamento, Deus zomba dos deuses egípcios, impingindo pragas associadas a eles; humilha a ciência de magos e sacerdotes; e faz cair o poderio de grandes nações. Em verdade, não se trata de Deus ter agido favoravelmente aos judeus e em detrimento de outros povos; mas sim desses outros povos estarem em terríveis faltas, segundo a Sua Lei, pois as preferências de Deus não são levianas como as do homem. A resistência em aceitar isso está diretamente ligada à concepção de um Deus Impessoal e indiferente ao que acontece no mundo; pois, enquanto Pessoa, Ele pode gostar ou desgostar daquilo que enxerga no âmago do coração humano. O Senhor Jesus nos ensinou a estabelecermos uma relação de intimidade amorosa com o Pai Eterno e isso só é possível tendo a Deus por Pessoa, em vez de um conjunto de forças ou princípios indiferentes à condição humana.


É sobremodo óbvio que o pensamento cristão diverge da concepção típica dos cultos e filosofias de Mistérios que apregoam a impessoalidade de Deus, enquanto promovem inteligências inumanas à condição divina; e os homens que as servem a guias iluminados para os postulantes do esoterismo. Assim, no lugar do Deus Pai que castiga (mas que é infinitamente mais prodigioso no Amar e Perdoar) surge o "Deus Máquina" e suas inexoráveis leis de ação e reação5 que ativam, por assim dizer, os "processos mecatrônicos do Universo". De fato, muitos cristãos também parecem incapazes de conceber que Deus possa expressar empatia pelas causas humanas e, portanto, dirigem as suas súplicas a um enorme contingente de intercessores. Como justificativa para essa mediação, o fiel é comparado a um consumidor cujos contatos devem ser intermediados por subalternos, pois jamais receberá um atendimento direto do presidente da organização. Diante desse argumento, convém lembrar que as regras hierárquicas que se aplicam a estranhos ou servos, não se aplicam aos "filhos do Dono", devidamente reconhecidos em Cristo, Jesus. Não questiono aqui a importância, tampouco a validade da intercessão, mas afirmo que ela só é necessária enquanto não restabelecemos a nossa intimidade com Deus e passamos a nos comportar como seus filhos.


"Abrahão recebendo os Três Anjos", Bartolomé Esteban Murillo, 1667.


Deus, em Pessoa, esteve com Adão; anjos, em pessoa, aparecem aos homens; Jesus, em Pessoa, habitou no mundo, entre nós; e, diga-se de passagem, as obras e admoestações de Deus ao seu povo se manifestam no mundo através de pessoas (Seus Profetas). O imaginário pode tecer inúmeras teorias, inclusive ufológicas para explicar essas pessoas da Bíblia, mas a Palavra nos remete a uma dimensão material e uma espiritual, regidas por leis que mantêm a Criação em equilíbrio. Em 2 Reis 13: 21, um morto é lançado ao túmulo de Eliseu e revive ao tocar-lhe os ossos. Essa passagem ampara o entendimento de que os homens dedicados a Deus continuam a manifestar a Sua Graça, mesmo após a morte, através de seus restos mortais6. Em suma, para agir no mundo, aquilo que é consciência espiritual (boa ou má) precisa tomar forma corporal; ou se valer de referenciais humanos; ou mediar-se por seres vivos; relíquias; ou objetos físicos que podem ser consagrados para esse propósito. Em espírito, julga-se o que é espiritual e, em carne, o que é carnal. Portanto, não há absurdo no comer e no beber quando Aqueles que vêm em Nome do Senhor se apresentam ao homem. E, conforme são recebidos por seus hospedeiros, esses últimos também recebem o seu galardão: "Conserve-se entre vós a caridade fraterna. Não vos esqueçais da hospitalidade pela qual, alguns de vocês, sem o saberem, hospedaram anjos" – Hebreus 13: 1-2.


5 Leis Cármicas/magnéticas, alegadamente, passíveis de manipulação por "altos iniciados" que conheçam o seu funcionamento e os expedientes mágicos necessários para controlar o seu mecanismo.
6 Na Igreja Católica, o prodígio realizado através dos ossos de Eliseu embasa o culto às relíquias; isto é, a sacralização dos vestígios terrenos de seus santos e mártires, assim como à veneração dos "corpos incorruptos".




"A Criação de Adão", Michelangelo, 1511.

O que a mente separa pela razão, a emoção une pelos sentimentos. Conceber a pessoalidade de Deus é também aceitar a Sua capacidade de sentir. Algo que não implica em imperfeição, mas num complemento à razão, sem o qual Ele próprio não poderia admirar a beleza de Sua obra, tampouco arquitetá-la com tamanha harmonia. Se o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus e possuímos sensibilidades emocionais que se somam à razão, por que conjecturar com estranheza sobre os sentimentos de Deus?

Como Ele poderia Amar o mundo, ou como Jesus poderia Amar-nos e se sacrificar por nós, sem os sentimentos a forjar-Lhes a pessoalidade? E, podendo Amar, por que Deus não poderia Enciumar-se, Irar-se, Entristecer-se e, inclusive, Arrepender-se? O significado etimológico da palavra "arrepender" (do grego "metanoeo") é "mudar" e, no AT, frequentemente, Deus muda o Seu julgamento e reforma as suas sentenças, interagindo com os seus servos, ao advogarem pelo povo. É notável que, em diferentes contextos, vemos esse mesmo Deus, dito irascível, dialogar com o homem, escutar os seus argumentos e voltar atrás na Sua determinação de punir. Isso só é possível porque Deus não age por puro aborrecimento, mas segundo a Sua Lei e as apelações de justiça que Lhe fazem. E aqui podemos voltar ao infindável circunlóquio das mesmas críticas e murmurações: por que Deus, sendo Perfeito, escutaria o homem? Ora, porque, a despeito de uma ciência que "mata Deus" e deprecia o valor da vida humana, está escrito: "[...] Sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo" – Salmos 82: 6.

Os sentimentos não são uma exclusividade do homem e o reino animal nos dá amplas demonstrações disso como, por exemplo, as manadas de elefantes que se reúnem às lágrimas ao redor dos seus mortos e, em vigília, acariciam os corpos com as trombas como se tentassem reanimá-los. Os mamíferos superiores demonstram alegria, tristeza, ternura e toda uma extensa gama de sentimentos (raiva, ciúmes, etc.), não muito distintos do homem. Mas porque até os animais possuem sentimentos, será que devemos inferir que são expressões primitivas, no sentido de serem inferiores? Ou, de forma mais justa, deveríamos considerar que sentir é uma propriedade inerente à criação, exibida em diferentes níveis de intensidade, complexidade e refinamento?

Lola, Zoológico de Mônaco - não resistiu a uma cirurgia cardíaca.
A manada se reuniu em torno dela, tocando suavemente seu corpo
com as trombas numa despedida.

Podemos supor que o homem primitivo entendia claramente o ciúme, a inveja, a possessividade e a ira; mas teria igual maturidade para compreender e expressar a natureza do amor que, em vez de tomar, doa? Na hierarquia dos sentimentos, o mais sublime é o amor, pois, conforme 1 João 4: 7, "[...] o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque DEUS É AMOR".

Em contraste, a história da humanidade é marcada por lutas pelo poder e a supremacia entre os povos, onde as civilizações protagonizam conflitos sanguinários para expandir os seus impérios e escravizar os mais fracos. Nesse contexto, os povos do Antigo Testamento, incluindo os próprios judeus, não eram pacíficos, nem justos, mas constituídos por gente de coração duro, idólatras, insubmissos, violentos e homicidas. Espiritualmente, da Babilônia ao Egito, os cultos espelhavam um propósito de dominação no qual as deidades eram adoradas na expectativa de subjugarem os inimigos; oferecerem proteção geral; e garantirem a prosperidade dos reinos. Nesse contexto, como crer em um Deus Único, cujo Amor Universal não faz acepção de pessoas? Ou, mais difícil ainda: como aceitar uma Palavra que prega o amor aos inimigos?

Para que o aperfeiçoamento da lei mosaica se tornasse aceitável, a ponto de que o amor ao próximo fosse estendido aos inimigos, exigiu-se um longo processo de amadurecimento do homem, através do tempo:

Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a Lei, a fim de redimir os que estavam sob a lei, para que recebêssemos a adoção de filhos.


Gálatas 4:4

O termo "plenitude" remete ao requisito de "maturidade" e a Palavra é bastante clara em relação ao restabelecimento da nossa condição filial

E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho aos seus corações, o qual clama: "Aba, Pai"7.
Gálatas 4: 5

Os judeus, porém, rejeitaram a pedra angular (o Senhor Jesus) porque esperavam um libertador que os conduzisse na luta contra a opressão romana, mas esse tipo de liderança não se confirmou e um grande contingente do povo escolhido recusou a Boa Nova de Amor que os gentios souberam acolher. O mundo apregoa que o homem deve seguir o seu coração 8, mas a Bíblia nos ensina que "[...] o que confia no próprio coração é insensato [...]" - Provérbios 28: 26; pois nele têm origem "[...] os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias" - Mateus 15: 19. Paulo complementa esse entendimento, dizendo-nos que na carne não habita bem algum, mas o desejo e é por isso que ele não faz o bem que gostaria, mas o mal que não quer (Romanos 7: 18-19).



7Aba Pai: expressão de intimidade filial semelhante a "Querido Pai", "Papai", "Paizinho".
8Antes de seguirmos o nosso coração, devemos clamar a Deus para criar em nós um coração puro e renovar-nos um espírito reto (Salmo 51: 10).



Os que dizem que a conduta de Deus no Antigo Testamento diverge de Sua conduta no Novo Testamento, simplesmente desprezam que o homem atingiu um estágio de maturidade onde muitos (porém, nem todos), já eram capazes de aceitar a revelação de um Amor incondicional que não cabia no seio de uma única nação e estava destinado a se espalhar entre todos os povos da terra.

Em Atos 10, Pedro resiste em partilhar a Boa Nova com os gentios. Por três vezes, ele tem uma visão onde o céu se abria, como se descesse um lençol, atado pelas quatro pontas, carregando todas as espécies de animais, os quais uma voz ordenava-lhe a matar e comer. Pedro, entretanto, recusava-se a obedecer alegando que se tratavam de criaturas impuras, mas a voz redarguia dizendo para não chamar de impuro o que Deus purificou.


"Visão de Pedro", Domenico Fetti, 1619.

A partir do entendimento dessa visão, Pedro percebeu que Deus não faz acepção de pessoas e o Ministério da Salvação não estava restrito ao povo judeu. Faz-se nítido, portanto, um processo de amadurecimento do homem na relação com Deus, pois além de presos às paixões da carne, somos diminutos em consciência. Paulo expõe essa limitação, em 1 Coríntios 13: 9,ao considerar que "[...]em parte, conhecemos; e, em parte, profetizamos". Ou seja, a nossa ciência é parcial, assim como a nossa profecia é incompleta. Possuímos restrições intelectuais e espirituais e, exceto pela Graça de Deus, a verdade nos escapa, impedindo que conheçamos (a Ele) como somos conhecidos (por Ele). Para compensar essa debilidade, ainda em I Coríntios 13, Paulo enaltece o cultivo do mais sublime de todos os carismas: o Amor (Caritas). Paulo professa que o Amor jamais acaba e não se regozija com a injustiça, mas com a verdade.Que não inclina à inveja, à vanglória, à soberba, à irritação ou ao Mal, mas à verdade. O Amor, portanto, restaura a nossa filiação divina.

Sabendo que Deus é Amor e o Amor não compactua com a injustiça, mas se enche de júbilo com a verdade, podemos inferir que o Altíssimo está sempre disposto a mostrar a verdade ao homem. Somente o Amor (a essência de Deus) pode inspirar a nossa compreensão e contrapesar a nossa incapacidade cognitiva para conhecer a verdade que liberta, pois não é a nossa ignorância que nos faz prisioneiros do Mal, mas a falta de Amor. Nesse sentido, também podemos inferir que o perdão que Jesus pede ao Pai para conceder aos seus algozes é, em superfície, pela ignorância daquilo que fazem; mas, em profundidade, pela ausência de Amor em seus corações.

"A Flagelação de Cristo", William Borguereau, 1880.

O tolo transita entre extremos para criar um Deus à imagem e semelhança de seus desejos e fantasias. Portanto, há quem humanize o Altíssimo ao nível dos próprios pecados; ou quem O desumanize, despersonificando o Seu caráter para fazê-Lo parecer indiferente com as obras de sua iniquidade; assim como também há os que Lhe negam a existência a fim de ocupar o Seu lugar, direta ou indiretamente, com falácias ideológicas e "niilismo científico". Cresce o número dos que rejeitam a Pessoalidade de Deus, negando que Ele tenha sentimentos, preferências, ou mesmo exista; ainda que o nosso conhecimento da verdade seja fragmentário e, em vez de Amor, os nossos atos transbordem a corrupção que habita em nossos corações. Sobre esse comportamento presunçoso está escrito que:

[...] nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos; Sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons; Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus; Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te. Porque deste número são os que se introduzem pelas casas, e levam cativas mulheres néscias carregadas de pecados, levadas de várias concupiscências; Que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade.

2 Timóteo 3:1-7

Será que Deus, no Antigo Testamento, era mesmo o cruel e genioso demiurgo, ou passado tanto tempo, podemos constatar com um pouco de reflexão e humildade que é o homem que não se emenda?




12. Sobre Ser Cristão


Redes Sociais.

Há mais ou menos sete anos, eu participava de grupos de discussão na Internet que tratavam sobre assuntos relacionados ao misticismo 9, à ufologia, às teorias conspiratórias e a Nova Ordem Mundial. Uma moça que eu jamais conheci (exceto pelo nickname e avatar 10 que usava) levantou uma dúvida pessoal que, do ponto de vista dela, parecia comprometer o meu posicionamento acerca desses assuntos. Incomodada com alguns comentários que fiz, ela escreveu uma mensagem em modo privado onde dizia que, embora eu expressasse as minhas ideias com bastante propriedade e clareza, eu "parecia cristão". Curiosamente, isso me foi dito como se fosse algo desabonador, porém, despertou em mim a feliz sensação de redescobrir a minha própria identidade.

Eu venho de uma família católica e embora a minha infância seja marcada pela devoção que os meus pais nutriam pelos santos, assim como pela frequência à missa dominical: o estudo diligente dos Evangelhos não teve lugar na minha educação. Essa ignorância da Palavra fez com que eu aceitasse simulacros da verdade cristã e, aos meus olhos, por falta de discernimento, os rituais da Igreja se tornassem indistintos das cerimônias que presenciei em Escolas de Mistérios. Hoje, eu acredito que Deus zelou por mim, permitindo que eu pudesse andar a beira do abismo, mas sem jamais deixar que eu escorregasse, saltasse ou fosse empurrado. Creio que havia coisas que eu precisava ver e aprender, testemunhando pela passagem do tempo, o efeito venenoso que elas tiveram na vida daqueles que mergulharam fundo em práticas que eu apenas toquei na superfície e, mesmo assim, exigiram muito esforço para "fechar as portas" que se abriram.

Ainda que isso possa soar demasiadamente simplista, digo que para ser cristão e herdeiro da Graça, basta aceitar ao Nosso Senhor Jesus Cristo como único e suficiente Salvador e proclamar a Boa Nova dos Evangelhos com atos e palavras, restabelecendo a intimidade com o Pai Eterno. Contudo, é um erro dispensar a participação comunitária, ainda que a Igreja esteja corrompida pelo materialismo espúrio das "teologias" da prosperidade (nas Igrejas Evangélicas) e da libertação (na Igreja Católica). Não se deve subestimar o batismo que é o mais importante reconhecimento público da fé, tampouco esquecer que somos chamados a servirmos uns aos outros. Os verdadeiros fiéis à Palavra devem se manter presentes e resistir à apostasia 11. Portanto, se você faz parte de alguma comunidade cristã, dentro de qualquer denominação, continue atuante e seja a diferença necessária para que a fé não esmoreça ou sofra maiores desvios. Essa, assim entendo, é a parte que nos cabe, restando descansar em Deus e permitir que Ele assuma o comando na condução de nossas vidas.


9 O termo misticismo é aqui empregado de forma geral, considerando a raiz grega "mystes", i.é, iniciado nos mistérios. O misticismo abrange o estudo das doutrinas secretas (ou arcanos ocultos) propagadas pelas Escolas de Mistérios, assim como filosofias orientais, etc.
10Apelido e imagem usada para representar usuários, em comunidades virtuais.
11Apostasia: do grego "apóstasis", "estar longe de"; afastamento da Igreja e renúncia da fé.




Considerações Finais


Da Lei à Graça.


Filho meu, não te esqueças da minha lei, e o teu coração guarde os meus mandamentos. Porque eles aumentarão os teus dias e te acrescentarão anos de paz. Não te desamparem a benignidade e a fidelidade, ata-as ao teu pescoço; escreve-as na tábua do teu coração. E acharás graça e bom entendimento aos olhos de Deus e do homem. [...] Não rejeites a correção do Senhor, nem te enojes na sua repreensão. Porque o Senhor repreende aquele a quem ama, assim como o pai ao filho a quem quer bem.
Provérbios 3: 1-4; 11-12

É confortável crer num amor permissivo que tudo aceita, sem reprovação. Porém, o respeito é o alicerce que precede o amor, de forma que pode haver respeito, sem amor; mas não pode haver amor, sem respeito. Tudo tem os seus limites e toda a ultrapassagem de limites gera consequências. Há os que se revoltam contra o comportamento de Deus no AT, enquanto se comportam exatamente como os povos bárbaros da antiguidade. Exaltam o Amor de Cristo, mas apenas como se isso os pudesse isentar de atos outrora punidos com dureza pela lei mosaica. Honestamente, como cristão, eu admito estar muito distante do modelo exemplar. Mais de dois mil anos se passaram desde que o Senhor Jesus aperfeiçoou o Mandamento de Amor, expandindo-o para os nossos inimigos; e percebo, em mim, o quanto é difícil perdoar. O que dizer, então, sobre ser capaz de sentir amor e agir de forma amorosa com quem me cause algum mal? O melhor que consigo fazer é me afastar, sem alimentar desejos de vingança ou infortúnios... Mas amar?

Ao tempo em que o Novo Testamento anuncia a Boa Nova de libertação, nem todos os irmãos parecem ter consciência do quanto as Leis do Eterno ficaram mais rigorosas após a vinda de Cristo e em como isso torna mais crítica a necessidade de irmos à Cruz para recebermos a Graça da Salvação. Somos tão miseravelmente inclinados ao pecado que, em 1 Coríntios 5: 1-13, Paulo conclama a congregação para expulsar um membro da Igreja que dormia com a mulher do próprio pai, permitindo que ele fosse entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de salvar-lhe o espírito. Em Atos 5, a fraude de Ananias e Safira que prevaricam na venda de uma propriedade e mentem diante do Espírito Santo é punida com morte súbita. E, neste ponto, falando sobre o Espírito Santo de Deus, convém lembrar a advertência do Senhor Jesus:

E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro.
Mateus 12: 32

Esse versículo deixa claro que a complacência de Deus tem limites. O Cordeiro veio lavar as nossas culpas com o próprio sangue, mas é preciso reconhecê-las, ir à Cruz e pedir perdão para que toda a sujeira seja removida, antes que possamos nos apresentar diante do Espírito Santo de Deus com um coração contrito, "Pois o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor" - Romanos 6:23.

"Jesus Cura o Cego Bartimeu", Nicolas Poussin, 1650.

Ainda que possamos ser salvos pela Graça que nos livra da morte, continuamos sujeitos à Lei que cobra os nossos erros e nos priva de vida abundante. Assim sendo, a doutrina cristã ensina que os sofrimentos na carne só podem ser superados pelo arrependimento, confissão e abandono dos pecados. Em seu Ministério, o Senhor Jesus pergunta ao cego Bartimeu, em Jericó: "Que queres que te faça"? - Lucas 18: 41. Será que Jesus não notou a cegueira do homem; ou será que também faz parte da Lei que formalizemos os nossos pedidos diante de Deus, antes que Ele possa conceder a Sua Graça? A segunda hipótese é confirmada em Lucas 11: 5-10, onde, como filhos do Altíssimo, somos encorajados a verbalizar as nossas necessidades e a agir para concretizar as nossas intenções (ora et labora 12):

  Então lhes disse:

  - Suponham que um de vocês tenha um amigo e que recorra a ele à meia-noite e diga: "Amigo, empreste-me três pães, porque um amigo meu chegou de viagem, e não tenho nada para lhe oferecer".

  - E o que estiver dentro responda: "Não me incomode. A porta já está fechada, e meus filhos estão deitados comigo. Não posso me levantar e lhe dar o que me pede".

  Eu lhes digo: embora ele não se levante para dar-lhe o pão por ser seu amigo, por causa da importunação se levantará e lhe dará tudo o que precisar. Por isso lhes digo: Peçam, e lhes será dado; busquem, e encontrarão; batam, e a porta lhes será aberta. Pois todo o que pede, recebe; o que busca, encontra; e àquele que bate, a porta será aberta.

Lucas 11: 5 - 9

Deus conhece as nossas fraquezas e é capaz de perdoá-las, desde que tenhamos coragem para admiti-las e humildade para suplicar pela absolvição. Em geral, os pecados do homem mantêm-se basicamente os mesmos e, exceto por indivíduos isolados que são figuras exemplares aos olhos de Deus (como Daniel), a narrativa bíblica faz pensar que, essencialmente, os judeus não eram melhores do que os demais povos. Ao contrário disso, podemos dizer que se faziam ainda piores, pois, apesar de todas as maravilhas que lhes eram mostradas, fraquejavam constantemente. Entretanto, se não fossem tão rebeldes e obstinados, como Deus poderia manifestar a Sua Graça? O Altíssimo não se serve somente de homens justos e piedosos, ou se limita aos bons e aos retos; mas, na magnificência do Seu Amor é capaz de usar a quem bem entenda e, por vezes, transformar instrumentos de pouca serventia naquilo que Lhe seja útil.

Não fosse assim, eu não ousaria escrever estas linhas, pois, certamente, existem irmãos mais dignos, amorosos, piedosos, justos, bem instruídos e de muito maior valor.

A Paz.


12 Lema beneditino, "ora e trabalha".

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